09/10/2017 | 7h00m

Entrevista

"O Grêmio aconteceu na minha vida e foi amor à primeira vista", diz Paulo Victor

Goleiro fala sobre trajetória no Flamengo, passagem pela Turquia e sonho de título na Libertadores

Ronaldo Bernardi / Agência RBS

Com quase três meses de Grêmio, o goleiro Paulo Victor, 30 anos, dispensou um gordo salário no Sivasspor, clube que já foi treinado pelo ex-lateral Roberto Carlos na Turquia, para atuar na Arena

Já estava com passagem comprada e contrato em mãos, mas decidiu colocar seu sonho de criança à frente da realização financeira. Filho do ex-atacante Vidotti, companheiro de Sócrates, Casagrande e Zenon no Corinthians entre 1982 e 1983, na época da Democracia Corintiana, Paulo Victor adorava vestir as camisas que o pai trocava com jogadores de outros clubes. Uma, em especial, fazia seus olhos brilharem.

— Tinha uma caixa de camisas, a do Grêmio era minha preferida. Eu sempre pegava, era de linho, tinha costura no braço e caía bem. O Grêmio aconteceu na minha vida e foi amor à primeira vista. Abri mão de tudo que ia receber na Turquia para estar aqui — conta o goleiro, sentado no confortável sofá de seu apartamento na Zona Norte da Capital.

A estreia pelo Grêmio, ele conta, teve um sabor especial. Na vitória sobre o Atlético-MG, 2 a 0, pelo Brasileirão, Paulo Victor defendeu um pênalti cobrado por Robinho. Mesmo na reserva de Marcelo Grohe, PV, como é conhecido no grupo, torce pelo sucesso do colega. Ele garante: não há vaidade no grupo.

— Quando ele está jogando, estou torcendo por ele. Daqui a pouco pode ser eu lá, tenho certeza que ele vai torcer por mim. Procuro ter a melhor convivência possível, mas treino para ser titular. Quando cheguei, estava há dois meses sem jogar. Mas ninguém quer saber disso, todos me cobram como titular — observa.

Profissão goleiro
"Sou filho de um ex-jogador. E sempre quis seguir os passos dele. Até meus 13 anos, eu era lateral-esquerdo e volante. Meu primeiro treinador achava que eu tinha um pouco de qualidade para jogar na linha. Mas sempre quis ser goleiro. O destino mostrou que meu lugar era no gol, essa paixão é desde novinho."

Trajetória até o Flamengo
"Eu jogava no Assisense, time da minha cidade, Assis (fica a 438km de São Paulo). O clube arrumou um patrocinador forte, uma cervejaria, e trouxe o Carlos Rossi, técnico com bastante nome no interior paulista. O clube fez um churrasco para apresentá-lo e teve um joguinho. Ele me viu jogar e, quando soube da minha idade, disse que era para eu estar em clube grande e me indicou ao Flamengo. Ele nem chegou a treinar o Assisense e acabou indo para a Matonense."

Flamengo x Grêmio
"Vou ser eternamente grato ao Flamengo. Minha história está marcada lá, com honestidade e trabalho. Polemizaram uma declaração de que eu trocava um time grande por um gigante, fiquei chateado. As pessoas não procuram saber e perguntar, já saem te atacando e xingando nas redes sociais. Mas tenho que ver o lado bom, um time que me abriu as portas. Minha vinda ao Grêmio deixou minha família muito feliz. Ninguém é eterno em um clube, não tenho que ficar com mágoa por ter saído do Flamengo. Eu optei por vir para cá, tinha mais dois anos de contrato no Flamengo. Fiz de tudo para vir ao Grêmio."

Na Turquia
"
Há dois anos, recebi proposta do Besiktas e não fui. No ano passado, veio o Gaziantepspor, último colocado do campeonato turco, e eu fui. De vez em quando, você tem que abrir mão de algumas coisas na vida. Eu não precisava ter ido para um time em último lugar, mas eu queria um desafio na minha vida. Era o momento de arriscar. Fiquei quatro meses e aprendi muito. Vivi um momento financeiro complicado, quando fui para lá eu sabia que poderia ficar sem receber. Mas confiei no meu trabalho e fui. Voltei para o Brasil feliz e vitorioso, recebi três propostas de clubes importantes da Turquia. Você vê que tem valor."

Volta ao Brasil
"Depois que quebrei contrato com o Gaziantepspor pelo atraso de salários, voltei para o Brasil com a cabeça na Turquia. Tinha propostas do Alanyaspor, onde joga o Vágner Love, o Göztepe, quarto colocado na liga, e o Sivasspor, que eu tinha acertado. Um clube com estrutura maravilhosa, que não atrasa salários há sete anos. Me ofereceram contrato longo, era o que eu queria. Estava tudo acertado. Mas aí apareceu o Grêmio."

Acerto com Grêmio
"Tinha uma diferença muito grande entre a oferta salarial que o Grêmio fez e a que eu tinha na Turquia. Mandei mensagem ao empresário que negociava com o Grêmio agradecendo por tudo que tinha feito. Mas no dia seguinte, ele me ligou dizendo que o Grêmio tinha aceitado o tempo de contrato que eu queria (até dezembro de 2019). Na hora, vi a lágrima nos olhos da minha esposa. Ela queria ir para a Turquia, mas quando comecei a falar com o Grêmio ela sentiu que era para eu estar aqui. Quando abri mão de tudo para estar no Grêmio, o coração pediu."

Relação com Grohe
"Demorei sete anos para ser titular no Flamengo. Se eu tivesse criado estresse, teria saído antes e não viveria o que vivi. A gente perde coisas na vida por impulso. Quando acertei com o Grêmio, sabia do carinho da torcida com o Grohe, a história que ele tem. Respeito muito. Mas tenho meus objetivos. Quando ele está jogando, estou torcendo por ele. Daqui a pouco pode ser eu lá, tenho certeza que ele estará torcendo por mim. Procuro ter a melhor convivência, treino para ser titular. Quando cheguei, estava há dois meses sem jogar. Só que todos me cobram como titular."

Libertadores
"Quando eu estava na Turquia, eu via muitos jogos do Grêmio. Me encantei com a forma que o Renato montou o time. Ele é um técnico difícil de encontrar no Brasil. Trabalhei com mais de 20 no Flamengo. Ele sabe lidar com o grupo, sabe impor a forma de trabalhar e ter o respeito e carinho dos jogadores. O Grêmio estar na semifinal da Libertadores tem a mão dele. São dois meses que podem mudar nossa vida. Hoje meu maior sonho é ser campeão da Libertadores aqui. Jogando ou estando no banco, não importa. O sonho de todos no clube hoje é conquistar este título."