11/02/2013 | 16h11m

Renúncia do papa

Bento XVI tentava resolver conflitos dentro do Vaticano

Em entrevista, assistente do Postulador Geral fala dos anos de Joseph Ratzinger à frente da Igreja Católica

O padre jesuíta Marc Lindeijer, assistente do Postulador Geral do Vaticano, disse que a saúde do Papa vinha se deteriorando

O padre jesuíta Marc Lindeijer, assistente do Postulador Geral do Vaticano, disse que a saúde do Papa vinha se deteriorandoCuria Generalizia SJ Roma / Divulgação

O padre jesuíta Marc Lindeijer é assistente do Postulador Geral do Vaticano — órgão responsável por apurar e julgar os casos de milagres no mundo. Observador atento das altas escalas de governo, ele conta quais os principais legados deixados pelo Papa Bento XVI.

Um lado conservador e outro progressista provocam tensões políticas dentro do Vaticano, especialmente no que diz respeito à forma como se ensina moral, ética sexual e comportamento para os católicos no século 21. Desde o Concílio do Vaticano II, nos anos 1960, o modo de levar essas questões tem sido assunto delicado na autoridade maior da Igreja Católica e o Papa Bento XVI era um dos que lutava para um apaziguar de ânimos.

— Há opiniões divergentes, aqueles que querem praticar sua fé de modo completamente separado do mundo moderno e aqueles que querem adaptar os modos ao mundo, como algumas igrejas protestantes têm feito. O que eu gostaria é um Papa que continue a forma inteligente e piedosa de guiar que caracterizou o pontificado de Bento XVI — diz Lindeijer.

Confirma a íntegra da entrevista:

Zero Hora — Qual foi a principal marca do pontificado de Bento XVI?

Marc Lindeijer — O que eu pessoalmente admiro no Papa Bento é a sua habilidade de ensinar. Ele tem sido um Papa catequizador — alguém como São Pedro Canisio — que tentou e ainda tenta informar as pessoas sobre a doutrina da fé, explicá-la, ter diálogos sobre isso, como ele tem feito em seus livros sobre Jesus. Outro aspecto que será lembrado são seus esforços para resolver as tensões na Igreja deixadas pela terrível polarização após o concílio Vaticano II. Um exemplo é que ele tem tentado diminuir a separação entre o Papa e a sociedade. Enfim, ele será lembrado com certeza como um homem grandioso, com grandes talentos e uma humildade impressionante.

ZH — Como a Igreja Católica mudou após o trabalho do Papa Bento XVI?

Lindeijer — Isso depende de nós, o que vamos fazer com o legado dele? O papel dele é ensinar, o nosso é ouvir e fazer. Se nós levarmos a sério o que ele nos ensinou, a Igreja será muito melhor.

ZH — Sempre se disse que Joseph Ratzinger seria uma espécie de Papa de transição. Para onde — em sua opinião — a Igreja Católica está transitando?

Lindeijer — Eu não estou certo de que o Papa Bento tenha sido um Papa de transição. Diziam o mesmo do Papa João XXIII e ele certamente não foi. O que eu espero que a Igreja vá fazer — e eu tenho certeza que é o que Bento espera também — é uma aplicação plena e completa do Concílio Vaticano II.

ZH — Qual é o principal desafio para o novo Papa? Poderia esta ser a chance para a Igreja Católica se ajustar aos tempos mais "modernos"?

Lindeijer — O principal será o desafio que a Igreja tem enfrentado nos últimos 200 anos, que é a perda de senso religioso no mundo todo e, por outro lado, o diálogo cada vez mais difícil com outras religiões. "Sal da terra, luz do mundo", se a fé não viver no coração das pessoas, as mudanças estruturais não vão ajudar.

ZH — O que significaria para a Igreja Católica ter um Papa do chamado "novo mundo" — como da América Latina ou da Índia?

Lindeijer — Eu acredito que seria bom se o novo Papa viesse de um país onde a Igreja está crescendo — Índia, Extremo Oriente, África — onde a Igreja é jovem, e essa pessoa poderá trazer a experiência de uma Igreja com total vigor e a contribuição de culturas extraocidentais para a Igreja como um todo.

ZH — Quais eram as condições de saúde do Papa Bento XVI nos últimos anos?

Lindeijer — A saúde do Papa Bento estava visivelmente se deteriorando, especialmente no seu jeito de caminhar. As pessoas próximas a ele notaram a sua grande fragilidade, na verdade, não havia mais viagens planejadas. Mentalmente, contudo, ele era e ainda é impressionantemente forte.

ZH — Quais são as possibilidades para Ratzinger depois da sua demissão? Ele seguirá trabalhando no Vaticano ou irá se aposentar completamente?

Lindeijer — Pelo que eu ouvi, ele quer se aposentar dentro do Vaticano, na clausura das Irmãs Contemplativas, para dedicar seus últimos anos à oração e ao estudo.

ZH — Um nome já cotado é o arcebispo de Genova, Angelo Bagnasco, que está com 70 anos. Isso não seria uma outra opção de transição?

Lindeijer — Se ele for escolhido, sim, possivelmente. Mas, fundamentalmente, eu acredito que o Espírito Santo nos dará exatamente o homem que precisamos, quer ele nos comande por um ou dez anos, quer seja europeu ou brasileiro.

Quem é Bento XVI

Joseph Alois Ratzinger, o papa Bento XVI, tomou posse no dia 19 de abril de 2005.

O pontífice nasceu no dia 16 de abril de 1927, em Marktl am Inn, uma pequena vila na Baviera, às margens do rio Inn, na Alemanha. Foi eleito para suceder ao papa João Paulo II como o 265° papa.

O último Papa com este nome foi Bento XV, que esteve no cargo de 1914 a 1922. Era ele quem estava à frente da Igreja Católica durante a Primeira Guerra Mundial.